Definitivamente o movimento Gótico não tem nada a ver com o Metal.O problema da geração mais jovem agir como metal, ouvir metal e se dizer góticos está em uma má interpretação da história do movimento.Acreditamos que se contribuirmos com informação, principalmente histórica, estaremos afastando o fantasma do metal da cena gótica.O Glam, o pré-punk, o próprio punk, a moda, a política, a economia, o New Romantic, e é claro, a música.Essa entrada do blog será dedicada a escanear, esmiuçar, dissecar o movimento gótico em todas as perspectivas possíveis.Vamos começar com uma tradução que fizemos dessa página na Internet, mas muito mais virá por aí.página:
http://www.scathe.demon.co.uk/batcave.htmA tradução: Quando o Batcave abriu em Julho 1982, não tinha a intenção de fazer uma noite ‘gótica’, nem as bandas ‘góticas’ existentes estavam preferencialmente no playlist. Ao invés disso, era visto como uma reinvenção do estilo ‘glam’ do Bowie, mas uma exentricidade mais obscura tipo horror. Quando aconteceu, encaixou-se muito bem com o que algumas bandas ‘góticas’ como Bauhaus estavam fazendo, membros das tais bandas góticas freqüentavam o clube e eventualmente tornou-se o protótipo do clube gótico.
Essencialmente, foi, em primeiro lugar, pensado como um clube para pessoas que estavam de saco cheio com a direção comercial do New Romantic e queria algo novo e mais obscuro. No início tocavam glam e música electro, mas várias das primeiras bandas góticas também tocavam lá e o playlist gradualmente tornou-se mais goth.
Numa entrevista na The Face de Fevereiro 1984 Hamish McDonald, o DJ do Batcave, disse “Eu toco o que eu chamo de curva do som, com Siouxisie e The Cramps na base, incluindo Sweet e os Specimen e esticando até Eddie Cochran e Death Cult”.
O Batcave tornou-se o maior ponto de encontros para a cena londrina emergente e também atraiu muita atenção da mídia, que, por sua vez, espalhou a idéia de uma nova subcultura pelo país. No despertar do Batcave, clube similares abriram por toda Inglaterra, e em 1983 o próprio batcave saiu ‘on tour’, dando aos goths fora de Londres um local qualquer para se encontrarem.
Novamente, Hamish McDonald na (revista) Face em fevereiro 1984: “Quando viajamos com o Batcave ano passado era óbvio que os garotos queriam dançar, não ficar sentados queimando velas negras em algum clube ‘alternativo’. Em pequenas cidades como Colne, Lancs, eles estavam furiosos e afim de músicas para dançar – mas só coisas modernas como Cocteau twins. Era mais difícil misturar o velho glam rock. Agora há noites Batcave no Planets em Liverpool, o Belfry em Leicester, o Hacienda em Manchester... É a única noite em que as crianças tem sua própria ‘discoteque punk’.
Conseqüentemente, enquanto oferecendo pouco quanto à música (exceto ASF e Specimen), o Batcave tinha um maior impacto na moda gótica e em popularidade. Essencialmente, adicionava uma dose maciça de ‘glam’ e atenção midiática à subcultura emergente.
- Do Diário Post-Punk de Gimarc na Quarta-feira, 21 de julho, 1982:
O BATCAVE é o novo point londrino que está abrindo hoje no Gargoyle, 69-70 rua Dean W1 em Londres. O clube é um acontecimento de toda quarta-feira à noite organizado pelos garotos do Specimen que vão tocar lá essa noite, e várias vezes no futuro. A decoração é couro e fitas, toques de filmes de horror dos anos 30 e ‘absolutamente não-funk’. Eles pretendem agendar atividades outras que música ao vivo como lutas na lama, shows piroténicos, Drag Cabaret e velhos filmes de horror em preto-e-branco.
2 – Hamish McDonald, o DJ do Batcave, da (revista) The Face, Fevereiro 1984:
“O Batcave atrai um montão de camaleões – você verá um garoto rockabilly dançando com uma garota gótica. São diferentes grupos de pessoas ficando juntas, ouvindo uns às músicas dos outros. Encontrará muita arte nos materiais góticos. Sisters of Mercy unem-se ao culto de Iggy de corpo e alma o que reflete um certo estilo de hoje. Virgin Prunes re-trabalham ritos pagãos e cânticos tribais e colocam muito de espacial e mêdo em sua música.”
Nota: O aparente ‘crossover’ entre os termos “novos punks” e “gótico”
2 . De um artigo intitulado “The Gloom Generation” por Suzan Colon que apareceu na edição de Julho 1997 em Details Magazine:
MARC ALMOND (Soft Cell): Eu gostei bastante de Alien Sex Fiend e Specimen e de um monte daquelas bandas nos primeiros dias. Acho que eram bem divertidas.
IAN ASTBURY (The Cult): Todas essas bandas estavam trabalhando juntas no Batcave em Londres por ’81 ou início de ’82. Era dirigido por Ollie Wisdom, que estava no Specimen. O clube era mesmo misturado; não era apenas um clube dark de deathrock. Specimen era a banda da casa, e eles eram bem dark, mas eram tão alemães quanto o eram a Família Adams. Eles eram como um Death Bowie.
MARC ALMOND: O Batcave mudou-se algumas vezes, mas eu me lembro do melhor num lugar chamado Gossips no Soho. Você tinha de pegar um elevador para a cobertura que costumava ser um clube erótico. Havia um pequeno teatro onde aconteciam strip-teases e, no Batcave era usado para assistir filmes góticos, ou bandas tocavam lá, e você podia ver pessoas como Robert Smith de bobeira no bar.
ROBERT SMITH(The Cure): A gente costumava ir ao Batcave porque ficávamos livres e era uma boa atmosfera e as pessoas eram mesmo muito legais. Mas a música era horrorosa! Todo aquele romanticismo da morte! Qualquer um que já tenha tido experiência com com morte poderia dizer que não há nada romântico sobre ela.
DAVID DORRELL: Um dos maiores holofotes do goth era ir ao Batcave quando era em Leicester Square. Era um ótimo clube; havia um jeep do exército estadunidense estacionado em cima no bar. Ao mesmo tempo em que isso acontecia, um cara invadiu o Palácio Buckingham e a Rainha acordou e viu esse irlandês bêbado, demente, na cama dela. Uma semana depois ele foi solto sob fiança, ele tocava com o Red Lipstick no Batcave.
4. Da (revista) Sounds, June 18 1983:
Os Specimen tinham adicionado três novas datas à turnê britânica do Batcave. Eles iriam ser acompanhados em todas as festas por Flesh For Lulu, que substituiu Alien Sex Fiend que caiu fora.
Nota: A data aqui – é quase a mesma data em que o filme The Hunger (Fome de Viver) foi lançado, que estrelou o ubíquo David Bowie e destaque ao vivo da performance do Bauhaus...)
Da (revista) Sounds, 20 de Agosto 1983:
Os indefectíveis transexuais apareceram mostrando seus corpos doentios no Batcave na última sexta-feira à noite. Incluindo (bocejo)... uma Siouxie Sioux gorda, um Nick Cave drogado, Patti Palladin, David Cunningham (quem?), metade da banda altamente lisérgica Brilliant, um pretencioso Sex Gang Child, uma Lindsay do Sex Beat(ou seria Sex Bat?), o ex-homem chamado Jayne County, Abbo e um ‘nobre’ de acordo com Olly (que também estava lá).
O Riverside da BBC também estava filmando para uma Noite de Halloween Batcave Especial, e notoriamente furiosos com a ‘ausência de celebridades reais’.
Nota: Novamente a data aqui, a lista de ‘celebridades góticas’ e a presença da BBC – dentro de um ano de funcionamento, o Batcave tinha se tornado uma instituição gótica que era conhecida o bastante para ser exibida na televisão nacional.
6 – De uma entrevista com Jonny (Slut) Melton em Mick Mercer’s Gothic Rock:
O Batcave era um nascedouro de idéias?
Era uma lâmpada para todos os malucos e pessoas como eu mesmo que era dos caretões e queria um pouco mais da vida. Doidões, esquisitos e desviados sexuais...
Haviam pessoas por lá que eram sempre atraídos por qualquer coisa brilhante, excitante, purpurina . Na época o batcave não era o tipo de lugar bichoso, gótico, sujo. Eu não acho que jamais foi, mas eu imagino que naquela época era o que as pessoas imaginavam que era...mas estava mais pra Gotham City do que para Aleister Crowley.
Nota: ‘estava mais pra Gotham City do que para Aleister Crowley’.Por esse depoimento nota-se que o aspecto teatral era a regra da cena e jamais o ‘satanismo’ ou ‘ocultismo’ ou coisa que o valha. (nota do tradutor)
7 – De uma discussão editada entre eu, Merlina e Michael Johnson no uk.people.gothic:
MICHAEL JOHNSON: Em qualquer história da moda gótica, o Batcave irá aparecer largamente. Em qualquer história da musica gótica, irá constar menos que uma menção, as ‘bandas Batcave’ como ASF . O Batcave era o lugar onde o ‘visual’ desenvolveu-se primeiramente a uma extensão elaboradíssima, mas a maior parte da musica da cena gótica veio de outros lugares...
PETE SCATHE: Eu acho que o que realmente aconteceu é que as coisas se enontraram num curso de colisão. O Batcave não foi planejado como um um clube Gótico, mas a cena gótica emergente como que dominou e adotou muitas das imagens...
MERLINA: Bem eu não me dei bem com o Batcave até a segunda noite então eu não sei o que foi inicialmente planejado. Para as pessoas com as quais eu estava foi uma reação contra a New Romantic (NR) que se tornou distintivamente superficial – Di estava vestindo fitas e todos os aluninhos de escola usavam calças retrô – e música NR, enquanto os mais balançantes , mais pop, tornaram-se descaradamente superficiais (e leva pelo menos uma década de nostalgia para apreciar aquele tipo de sentimentalismo!). O Batcave era rotulado como sendo ‘obscuro’, assustador, perigoso, etc – e ‘prometia’ nada de turistas americanos com câmeras. Nos primeiros dias certamente tinha um ‘lado’. Parecia Goth.
Quanto à musica – bem, era uma atitude mais ‘música como diversão’ mais do que’música como ‘arte/protesto/algo profundo’ que prevalecia, eu diria. Acho difícil dizer que a música vinha de um outro lugar qualquer – porque, como foi dito, haviam várias influências e pessoas que se reuniam sob a bandeira do ‘goth’. E havia uma variedade de argumentos na época como agora, sobre o que era e o que não era ‘goth’. Alguém mencionava Joy Division. Eles certamente não tocavam em clubes goth (não na época, de jeito nenhum) – eles eram definitivamente ‘indie’ – embora na época tudo se misturava no que se tornou as ‘noites alternativas’. Joy Division estava certamente no que era tocado. Apesar de que a música evidenciava todas as tradições que vemos agora no goth – de Sex Pistols aos New York Dolls.
Batcave propriamente tinha pessoas de várias tradições se reunindo também – O lado mais bem-vestido do punk; a galera da escola de arte do Blitz, uns poucos recentemente gays assumidos da cena fetichista e um monte de caras gays que houviram dizer que era um lugar seguro para se ir.
Michael Johnson e Merlina eram frequentadores habituais no Batcave – Michael Johnson era proprietário da Nemesis Promotions e é agora um contribuidor regular para Starvox.
Vale acrescentar o óbvio, que dois góticos antigos não terão a mesma visão do início da cena gótica nos 80s, particularmente em relação ao que era importante no ‘goth’ e o que não era. Pessoalmente, na época considerando o Batcave cheio de triste posers (provavelmente porque eu era um triste poser) e foi só mais tarde que eu percebi o quão importante ele foi para o início da cena.
Mesmo com o benefício da distância, é difícil quantificar a importância do Batcave. Em termos de moda e em consideração à cena de Londres foi certamente importante, mas em termos de música e fora de Londres a importância foi de longe bem pouca. Fora de Londres, haviam muitas pessoas que estavam apenas vagamente cientes dessa existência e que ganharam seus visuais goth do Bauhaus e Siouxie . mas eu acho que é justo dizer que a cena goth não teria sido a mesma sem o Batcave.
.............................Na próxima postagem, depoimentos dos maiores nomes da cena inicial dos 80s